Leila Krüger
Dois livros clássicos que vão mudar a sua vida
As obras-primas unívocas “Demian” e “O apanhador no campo de centeio” se tornaram “bíblias” da autodescoberta, da dualidade humana e da crítica social
Leila Krüger Você, eu, todo mundo deveríamos ler, ao menos uma vez na vida, estas duas obras: Demian, de Hermann Hesse (1877–1962), e O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger (1919–2010). Esse é um conselho que eu me orgulho de poder dar.
Mas por que você deveria ler estas duas histórias sobre adolescentes rebeldes que tentam descobrir como é o mundo e seu lugar nele?
Em parte, exatamente pelo que mencionei na frase anterior. Tanto Hesse quanto Salinger tratam da transição mais dolorosa e, é verdade, mais perigosa da vida: é quando, não sem um a hecatombe interior, embora por vezes silenciosa, percebemos que o mundo que nos venderam na infância é uma farsa ou, no mínimo, um amontoado de conveniências. Algumas parecem sem sentido; outras, até cruéis.
É o amadurecimento, que não necessariamente tem a ver com a idade.
Demian: uma rebelião literário-religiosa
O romance Demian foi publicado originalmente em 1919, logo após a I Guerra Mundial, sob o pseudônimo de Emil Sinclair (um dos protagonistas da história, barrada em primeira pessoa por Sinclair).
O livro do premiado Hesse (não deixem de conhecê-lo mais a fundo!) aponta a necessidade de quebrar a incólume casca (ou as asas supostamente angelicais) de um mundo antigo. Esse mundo, inevitavelmente, vai-se desfazendo à medida que o tempo passa e surgem questionamentos, companhias e percepções em nosso próprio ser.
O que Emil Sinclair e o estranho e perturbador Demian vivem é especialmente intenso na adolescência: velho demais para ser criança, jovem demais para ser adulto, como dizem. Um “entre-mundos”. Então, o livro começa na transição da infância para a adolescência e vai até a (talvez) transmutação desta para a idade adulta.
Se é que alguém pode nos dizer o conceito de “ser adulto”…
O apanhador no campo de centeio: mais um grito em mais um pós-guerra
O autor norte-americano Salinger tornou-se uma figura reclusa e mística. Um tipo de sábio no alto de uma montanha, após o sucesso periclitante e talvez sufocante, mas ainda atual de seu O apanhador no campo de centeio.
De suas experiências como soldado na II Guerra Mundial (Hesse escreveu Demian logo após o fim da I Guerra Mundial, lembra-se?), como o desembarque na Normandia e a libertação dos campos de concentração, Salinger desenvolveu uma visão cética e e ao mesmo tempo sensível e unívoca sobre a humanidade.
O Apanhador no Campo de Centeio (The Catcher in the Rye) foi publicado em 1951. Era o auge do conformismo americano do pós-guerra, e nos campos de centeio flamejantes e vilipendiados de Salinger (Caulfield?) ressoavam gritos contra a hipocrisia social (“phoniness”) que Holden Caulfield muito desprezava.
A condição humana e a sociedade: nosso lado obscuro e nosso lado claro
Separados por três décadas e continentes diferentes, Emil Sinclair e Holden Caulfield enfrentam o mesmo inimigo crucial: a institucionalização da mentira. E a mentira mora neles mesmos, entanto descobrem quem realmente são ante o que lhes impõe. Aqui, a coroa é da Hipocrisia, que torna tudo ambíguo, desafiador e, no fundo, triste.
Em Demian, a autodescoberta é o longo central para uma trama mística e psicanalítico, com influências do psiquiatra Jung em seu simbolismo, de Freud e de correntes de seitas sobrenaturais, até mesmo as de Crowley. Hesse, na voz de Sinclair, a personagem, argumenta que a sociedade nos obriga a viver no “mundo claro e asséptico” da lei e da moralidade superficial das tradições, como família, escola e religião). Então se vê em uma dualidade conflitante com o “mundo sombrio”: instintos, rebeldia, ceticismo,
Eu, se fosse você, aprenderia e refletiria com Demian e O apanhador no campo de centeio. Aqui, a autodescoberta é um ato de guerra, com si mesmo, com quem amamos e com o mundo: presente, passado e futuro.
Não se restrinja a “gritos contra o sistema”, essa armadilha fácil da ficção. É a verdadeira descoberta do mundo: a maioria das pessoas desistiu de si para caber em estruturas sociais, e desvelar e cultivar a própria essência custa caro. Viver não é fácil, acostume-se.
Acredito que seremos sempre Sinclairs, Demians e Caulfields perambulando pelos labirintos ora iluminados, ora notívagos de constantes guerras mundiais dentro do ente humano.




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