Seja bem-vindo
São Paulo,11/09/2026

    • A +
    • A -
    Publicidade

    Leila Krüger

    A solidão da infosfera hiperativa

    Na nuvem de informações (não-coisas) da infosfera, a contemplação das coisas naturalmente belas e sutis vai se dissipando, e a solidão por trás das telas se estabelece

    Imagem: Leila Krüger
    A solidão da infosfera hiperativa Precisamos voltar a contemplar o belo e natural na nossa rotina digital

    Hoje, nos vemos submersos em um mundo digital e digitalizado; mais que isso, agora a pele do mundo é a Era da Inteligência Artificial que maximizou os simulacros. Nossa identidade pessoal se dispõe à deriva, tudo flutua no mar de dados. 

    Mas toda tecnologia é uma faca de dois gumes, no sentido de techné, do grego τέχνη: um conceito filosófico da Grécia Antiga que significa “arte”, “ofício” ou “habilidade prática de fazer ou produzir algo”. Pode-se segurar a faca e cortar um pão; ou ferir alguém ou a si mesmo: é quem e como utilizam a tecnologia que importa. 

    Nos átrios da infosfera hiperativa, podemos nos perder facilmente, ou perder as coisas que um dia apreciávamos. Muitas delas são, de fato, belas, e tantas vezes sutis: pedem um olhar demorado e comovido.

    Mas estamos deixando se obliterar a sagrada contemplação. 

    A perda da contemplação  

    Explana o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em sua obra Não-coisas:

    Conectividade sem limites não produz conexão, um mundo. Ao contrário, tem um efeito isolador, aprofunda a solidão. O eu isolado, sem mundo e depressivo se distancia daquela solidão feliz, daquela altura sagrada da montanha. […] Nada se eleva. Nada se aprofunda. A realidade é nivelada em informações e fluxos de dados. Tudo se espalha e se prolifera. O silêncio é um fenômeno de negatividade. É exclusivo, enquanto o ruído é resultado de uma comunicação permissiva, extensiva e excessiva.

    Para Han, sobram ruídos e faltam silêncios que estabilizem e aprofundem a atenção, e suscitem o olhar contemplativo. O olhar de paciência para o largo e o lento. 

    Onde tudo está disponível e alcançável, nenhuma atenção profunda é formada. 

    No smartphone, distraímo-nos do mundo material repleto de significados que nos cerca, pelos lados, acima e abaixo. Assim ignoramos detalhes cativantes e por vezes vitais. Isso acontece quando nos deixamos engolir e deglutir pelas telas e simulacros. 

    Curta, comente e compartilhe: a solidão 

    O ver e o sentir não precisam ser sempre postados, fotografados ou filmados: podem ser apenas vividos. Há uma liberdade bela em apenas viver para viver — não para os outros. 

    Podemos fazer isso, para além de nossa tendência cada vez maior à passividade, ante o fluxo incessante de informações, ruídos, anúncios, ofertas, rótulos fugazes para pessoas solitárias e fugidias. Ante a não-coisa da informação digital que permeia e domina quase tudo em quase todos os lugares. 

    Ou podemos sucumbir à solidão na multidão de informações pragmáticas, otimizadas e impermanentes. 

    A solidão é a grande endemia da Era das Telas; conexões frágeis não constroem acolhimento. Sem acolhimento, o coração humano sofre: ou congela para se proteger, ou se desfaz em dores.

    Leila Krüger 🧠 




    COMENTÁRIOS

    LEIA TAMBÉM

    Buscar

    Alterar Local

    Anuncie Aqui

    Escolha abaixo onde deseja anunciar.

    Efetue o Login

    Baixe o Nosso Aplicativo!

    Tenha todas as novidades na palma da sua mão.