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São Paulo,11/09/2026

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    Água Viva: o fascinante livro que não tem forma nem gênero

    Edição de 2019 da Rocco é um presente aos fãs de Clarice Lispector e da boa Literatura


    Água Viva: o fascinante livro que não tem forma nem gênero Capa de Água Viva/divulgação

    Há nomes na literatura que dispensam apresentações: são unívocos e atemporais. Dizer apenas “Clarice” evoca o mesmo peso místico, absoluto e inimitável de dizer “Machado”. Nascida na Ucrânia sob o nome de Chaya Pinkhasovna Lispector, essa força da natureza transformou nossa língua. Sua estreia literária foi entre 22 e 23 anos, em 1942/43, com o mágico Perto do coração selvagem, que confundiu e ao mesmo tempo e levou a crítica da época. Já em 1973, poucos anos antes de sua precoce despedida, Clarice Lispector nos deixou sua Água Viva. Eis um livro que nasceu quebrando bússolas e rótulos e que, até hoje, se recusa a habitar os limites de um gênero literário definido. A obra paira como um mistério poliédrico (Clarice era, como ela mesma escreveu, “um mistério até para ela mesma”) e original. A jornada de tentar decifrá-lo, é desvelar Clarice nele, é sublime. Mas não espere conclusões concretas: aceite a subjetividade a que está destinada a narrativa em questão. 

    Não por acaso, esse foi o único livro que Clarice Lispector reconhecidamente hesitou em publicar, temendo o impacto de seu caráter profundamente revelador, experimental e assumidamente “anti-literário”. Tal obra-prima começou a pulsar originalmente sob o título de Objeto Gritante; mas foi a influência decisiva de uma carta do filósofo José Américo Pessanha que moldou uma metamorfose. O resultado dessa transformação é um paradoxo fascinante: ao mesmo tempo a criação mais autobiográfica e a mais enigmática de toda a bibliografia clariceana. Uma relíquia que atua com livres frequências quânticas que se alteram conforme a alma de quem a espreita. É um livro de alma para alma, ou soará realmente “anti-literário”. 

    Para nós, entusiastas que buscam tocar a arqueologia do processo criativo, a edição especial em capa dura lançada pela Rocco (2019, 1ª ed.) é um presente inestimável. Tem-se em mãos um projeto editorial primoroso de reprodução dos manuscritos e datiloscritos originais da autora (o primeiro item dessa coleção é o último e mais “brutal” livro de Clarice, A hora da estrela). Assim, além de nos colocar cara a cara com a fiação exposta de sua genialidade mesmo em suas rasuras, o volume de capa-dura reúne importantes textos de referência, incluindo a histórica carta de Pessanha e ensaios iluminadores de Alexandrino Severino, Sônia Roncador, Ana Claudia Abrantes e Teresa Montero, verdadeiras lanternas (nunca sem alguma obscuridade, ainda bem) sobre os cantos inesperados desse labirinto cósmico. 



    Clarice (Chaya ou Haya) Lispector aos 22 anos, ao se formar em Direito; e algumas décadas mais tarde. Imagens: divulgação 

    O FLUXO DE CONSCIÊNCIA E A VERTIGEM DO EXISTENCIALISMO ✍🏻 👁️

    Mergulhar nas páginas de Água Viva significa aceitar adentrar profundezas oceânicas abissais, onde a gravidade das estruturas tradicionais de enredo deixa de fazer sentido. O que mais faz sentido, aqui, é notadamente o próprio sentir. Clarice Lispector maneja o existencialismo não como um conceito teórico estéril de gabinete, mas como uma ferida aberta e pulsante em tempo real. Esse “tesouro escondido no fundo do mar” soa como o animal marinho que lhe dá nome: um ente maleável, hipnótico e sem esqueleto rígido, que flutua pelas correntes da emoção, da vida e do viver, dotada de um poder inevitável de “queimar” e marcar profundamente quem ousa tocá-la. Pois vale a pena interagir com essa perigosamente imprevisível e inescrutável água-viva. 

    Essa experiência fulcral se sustenta no domínio magistral do fluxo de consciência (Clarice teria se inspirado principalmente em Katherine Mansfield ao liberar seu próprio fluxo na escrita)uma técnica que a autora utiliza como águas que transbordam e moldam suas próprias margens ante a rigidez da gramática convencional e da razão. São pinceladas expressionistas, cores e formas líquidas de Salvador Dalí, ou notas de um jazz abstrato que intentam capturar o que Clarice chamava de “instante-já” — aquele milésimo de segundo exato em que a vida acontece antes de virar memória ou passado.

    Que fique claro: não se trata de ler uma história com começo, meio e fim, mas de testemunhar o próprio ato de pensar e existir sendo esculpido diante dos nossos olhos. Ora desabando-nos, ora refazendo-nos, ora apenas deixando um implacável, mas no fundo gentil ponto de interrogação, bem ao estilo Clarice.

    Para terminar, que de Água Viva se poderia passar um tempo indefinido falando: esse clássico aponta para o centro do debate da cultura pop atual. Clarice Lispector antecipou a nossa constante busca contemporânea por conexões reais e viscerais em um mundo saturado de aparências digitais. A Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman. Mas, sobretudo, a inconstância e impermanência do espírito humano em si. As águas do livro são sempre dolorosamente jovens, porque não dependem do tempo linear; a única esfera, dúbia, é a do deslumbramento e da angústia humanas. 

    Se você está cansado de fórmulas previsíveis, ou quer uma leitura que seja um verdadeiro abalo sísmico na sua percepção do “eu” e do mundo existencialista, vamos lá: tenha coragem, abandone as amarras de qualquer enredo e venha, com sua consciência pura, descobrir toda a vida que há em Água Viva de Clarice. Descobrir-se a si mesmo, um risco imprevisível e de uma beleza incólume. 




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