“Nosferatu”: 2025 ou 1922, qual o melhor?
Ambos os filmes se deleitam nas sombras do vampirismo gótico, do cinema mudo à Era Digital
“Nosferatu”, 2025 / Divulgação Amazon Prime O cinema do terror, ainda que psicológico, é em suma um “pacto de sombras” e puro sangue do gótico moderno. Poucas figuras personificam melhor essa atmosfera sombria e, no caso, vampiresca, quanto o conde Orlok. EAo compararmos a obra-prima de 1922 com a reinterpretação de 2025, a mais recente, não estamos apenas avaliando técnica cinematográfica, mas sim como o medo evoluiu de um sussurro perturbadoramente mudo e visceral para um grito hollywoodiano em alta definição.
O Nosferatu original de 1922, inspirado no livro Drácula, de Bram Stocker, datado das priscas do século XIX, era uma praga que rastejava pelas paredes de uma Europa traumatizada pela guerra: vampiros remetiam a ratos (a Peste Negra, analogamente), e não morcegos, e a dramaticidade de 1922, em imagens e gestual, eram vultos pálidos histriônicos, até pela limitação do cinema mudo. Já o Nosferatu atual soa como um vazio existencial que nos encara de volta: o filme de 2025 mostra que o verdadeiro horror não envelhece, senão “troca de pele” para continuar nos assombrando, com os mesmos elementais fundamentais do Mal, porém adornado de tecnologias e novidades impactantes.
Escolher entre o passado e o presente é como decidir entre o veneno e o punhal no fascínio do lado sombrio. Depois que o Conde Drácula emergiu do folclore da Europa Oriental e da história (e lendas) do conde Vlad Dracul (Vlad Tsepesh ou Vlad Tepes) da Valáquia dos séculos XV/XVI, o vampirismo pop nunca mais parou de “encantar” imensas plateias. A seguir, uma tela de Nosferatu de 1922.

O embate aqui é entre a nostalgia do arquétipo e a urgência da desconstrução. É honesto dizer que nenhum dos dois vence por nocaute, pois ambos servem a propósitos distintos em nossa psique coletiva, alimentando o desejo humano de flertar com a escuridão que habita em nossos sótãos internos.
SANGUE E SOMBRAS: ENTRE O SAGRADO E O PROFANO 🩸👻
A linhagem do ser humano “Não-Morto” é vasta e marcada por interpretações monumentais. como dissemos, a “saga” dos vampiros nas telas começou com o Nosferatu dos anos 1920, sob a direção de F. W. Murnau, quando Max Schreck deu vida a um Orlok que parecia um inseto humanoide e a própria Praga do Mal, enfrentando o Thomas Hutter de um expressivo, apaixonado e misterioso Gustav von Wangenheim. Murnau fundou o primeiro longa baseado no Drácula, em 1922, e o expressionismo através de sombras que pareciam ter vida própria, em um clima noir. Já a versão contemporânea mergulha na verossimilhança fantástica e na amplitude sensorial que o cinema digital permite.
Décadas depois, Werner Herzog nos traria Nosferatu: O Vampiro da Noite (1979), sob a intensidade maníaca de Klaus Kinski no papel do conde, em oposição ao Jonathan Harker de Bruno Ganz. Houve ainda a metalinguagem ousada de A sombra do vampiro (2000), onde Willem Dafoe interpretou um Schreck que talvez fosse um monstro real; e, finalmente, a visão de Robert Eggers em Nosferatu (2025), com Bill Skarsgård assumindo o manto do terror um tanto velado contra o Thomas Hutter de Nicholas Hoult.
Está trajetória cinematográfica é banhada pela riqueza e o “sangue nobre” do conteúdo gótico, onde o vampirismo não é apenas sede do líquido vermelho da vida, mas uma metáfora para o desejo proibido e a finitude. E há tantas camadas nisso, que poderíamos ficar horas discorrendo. Mas fato é que o gótico moderno resgatado por Eggers exacerba a noção de “caça-às-bruxas”, transformando o ambiente em um personagem opressor que pune a curiosidade e a pureza (sorvendo do “Santo Graal” do gótico da Idade Moderna). É um cenário onde a superstição é realidade, e o isolamento e angústia, terrenos férteis para a manifestação do mal absoluto.
Assim, sela-se o pacto mefistofélico com o sobrenatural, que é a magnânima engrenagem da trama de Nosferatu. O protagonista, ao cruzar o limiar do castelo de Orlok, assina um contrato silencioso com o abismo. Não se trata apenas de uma transação comercial de terras, mas de uma entrega espiritual (ouvi suspiros de Fausto de Goethe?). O vampiro é o Mefistófeles da era vitoriana: é a vida eterna em troca da alma e da sanidade, e até dos escrúpulos humanizados; uma troca que ressoa em nossa necessidade natural de trocar nossas essências por prazeres momentâneos ou conquistas vazias. Humano, demasiado humano.
O conflito romantizado entre o sacro e o profano é a espinha dorsal de Orlok em Nosferaru. O crucifixo e a luz do sol tentam, em vão, conter uma escuridão que parece anterior à própria Criação. Luz e trevas, vida e morte, renúncia e licenciosidade. Embates. No gótico moderno, o profano não é exatamente o oposto ao sagrado. É sua sombra, seu “lado B”, seu dualismo (como a sombra que convive inevitavelmente com a claridade, na psicanálise de Carl Jung). Em 2025, tal dicotomia é explorada com uma honestidade brutalizada: o monstro (menos “requintado” que o vampiro conde Drácula) não teme apenas o símbolo religioso — a “peste mortal que faz reviver” o corrompe, quando a fé é uma barreira frágil à atração pelo abismo, pelo sobrenatural e pelo poder sensual.
A beleza destas obras reside na sua capacidade de serem retratos de suas épocas, como é sempre a arte, mesmo a vanguardista. Se em 1922 o medo era a Peste e o desconhecido, em 2025 é a perda da identidade e a invasão do espaço íntimo. E, além disso, o “profano” em 2025 não parece mais “convidativo” na Pós-Modernidade, em que as religiões veem esmaecer seu domínio sobre as populações niilistas. Então, Nosferatu de cada geração é aquele que melhor sabe traduzir o silêncio da noite em um calafrio na espinha. Não importa o ano; sempre haverá sombras na parede, e Orlok continuará subindo as escadas de nossa consciência, lembrando-nos de que o sobrenatural está a apenas um convite de distância.
Obs.: sim, eu prefiro o Nosferatu de 1922. Cada tela é uma obra de arte gótica. E, como na sangrenta “megalogia” Pânico (Stab), o primeiro filme é que me vai mais fundo.
🍿 Onde assistir: Nosferatu (2025): atualmente disponível nos catálogos de streaming Peacock, e para aluguel/compra em plataformas digitais como Apple TV+ e Amazon Prime Video, foi indicado a 4 Oscars
⭐️ Destaques dos elencos: Nosferatu (2025): Bill Skarsgård (Conde Orlok), Nicholas Hoult (Thomas Hutter) e Lily-Rose Depp (Ellen Hutter)
⭐️ Nosferatu (1922): por ser uma obra em domínio público, pode ser assistida gratuitamente no YouTube, no Internet Archive ou em versões restauradas de alta qualidade no Criterion Channel e no MUBI. Atores principais: Max Schreck (Conde Orlok) e Gustav von Wangenheim (Thomas Hutter)
🅰️ Classificação: 16 anos (2025)





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