A metamorfose de Kafka é interna e não literal: uma dor insuportável de ser
O clássico livro de Kafka nos apresenta os sentimentos despedaçados de Gregor Samsa e a influência de Dostoiévski no “inseto no coração”
Imagem gerada por IA/Leila Krüger A metamorfose de Franz Kafka foi para mim, como é para muitos, um dos livros mais marcantes e instigantes que já li. É uma obra curta, um conto, sem rebuscamentos gramaticais. É um livro nu, cru e fascinante como o inseto em que Gregor Samsa certa manhã se transforma. Durante a leitura, que, é claro, recomendo demais, fiz algumas inferências. Depois descobri que muitas delas eram reais.
Primeira coisa: fiquei esperando o momento em que Gregor reclamaria de se ver como um inseto abjeto, estranhíssimo, escondido pela família e por sua própria vergonha nos cantos do seu quarto, vivendo de restos de comida. E pensei que Gregor indagaria muito como tal coisa havia acontecido: acordar como um inseto (que muitos chamam de barata, aparentemente o mais repugnante deles). Não li nada disso. Gregor nunca reclamou de ser inseto, nem questionou o porquê de ter se tornado aquilo, não com a ênfase esperada: apenas ralhou por ter dificuldades para se mover, não poder trabalhar e sustentar sua família mais, e ter de viver recluso para não envergonhar e assustar seus familiares.
Em Kafka, tudo é muito fundo e pessoal. É verdade que todo autor sempre escreve sobre si mesmo, ou facetas suas, mas Franz parece ter descrito meticulosamente como se sentia. Li seu triste e angustiado Cartas ao pai. E, logo antes de sua A metamorfose, eu havia destrinchado Memórias do subsolo, de meu amado Dostoiévski. Ao começar A Metamorfose, percebi, em um click, que Samsa (ou Kafka) tinham muito de “Memórias” do célebre escritor russo.
E que, ao menos a meu ver, a horrível metamorfose de Kafka nunca foi sua transformação literal em um inseto: era como ele se sentia. Como ele se via, e achava que sua família e outros o viam. Era aquele Kafka de Cartas ao pai. Era o Dostoiévski em suas memórias do exílio na Sibéria: um inseto desprezível a si mesmo.
Um inseto aferroando o coração.
A METAMORFOSE EM UM KAFKA EXILADO, INCOMPREENDIDO E FRAGILIZADO À IMAGEM DE DOSTOIÉVSKI: PRISIONEIROS DA DOR ❤️🩹
Acabei descobrindo, em notas de rodapé da crítica literária, que Kafka era fã de Dostoiévski e tinha vários livros seus. Então, deduzo que aquele “se sentir um inseto no subsolo, na prisão, no nada” algumas vezes repetido em Memórias do subsolo, do mestre russo, foi inspiração (e identificação) da parte de Kafka (Samsa). No caso da obra de Dostoiévski na Sibéria, que esteve a um instante de ser fuzilado, depois seria “completado” com Recordações da Casa dos Mortos, uma leitura um pouco arrastada, mas mais minuciosa sobre o “trauma” do “inseto” Dostoiévski no gélido e inóspito exílio com trabalhos forçados por “crime político”.
Há pouco tempo, encontrei uma versão de Memórias do subsolo com um enorme inseto na capa. Touché! Bem, estas são apenas minhas percepções. E, como alguém que já lutou e provavelmente volta e meia sempre duelará com o desajuste social, uma tendência relutante à depressão e a “se perguntar demais”, acho que compreendi o que é se sentir — mais que ser, morfologicamente — um inseto que se vê solitário e em enorme crise existencial.
Mas nós, solitários errantes e sensíveis demais para um mundo de fato siberiano, gelado e pouco empático, em que reinam regras, conveniências e esforço doloroso; onde almas perdidas vagam como insetos por aí, tanta gente que quase ninguém vê, e ainda aqueles que são vistos como “abelhas-rainha” enquanto seus espelhos insistem em mostrar-lhes, no recôndito, um tipo de inseto inapropriado ao mundo, ou aflito e triste; nós precisamos continuar acreditando e seguindo.
Ter propósito de vida. Buscar companhias e, se possível, trabalho que não desperdicem nossas vidas e não nos adoeçam com a “peste do inseto”. Sonhar. Por vezes sofrer, que a vida é dura, e quase todo mundo vai eventualmente se sentir um inseto, ou se sentir visto como tal.
Todavia, possivelmente há um segredo, meus amigos e amigas: os verdadeiros insetos abjetos no mundo são aqueles que não compreendem as diferenças, não acolhem a quem precisa, entorpecidos em orgulho, ódio e frivolidades. São os que se julgam intocáveis. Que destroem vidas com a falta de amor que lhes habita. Os que fingem demais. Os que matam aos poucos outras pessoas. Esses são os insetos pérfidos que voam por aí, gigantescas baratas colidindo com nossos rostos, nossos sonhos, com quem verdadeiramente somos ou poderemos ser.
Que o inseto seja apenas larva, e renasça quantas vezes for preciso como borboleta. Que não seja condição, mas momento. Valorizar-se a si mesmo tem de vir antes do julgamento alheio, e tem de vir com ações e resiliência. Não, não sejamos perpétuos “exilados” em quartos abandonados, na pungente Sibéria da terra.
E vivamos sempre “apesar de”. “Apesar de” é como minha amada Clarice Lispector nos disse que devíamos viver — ela que descobriu o mundo e o desafiou.





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