Todo mundo devia ler “O Alquimista” uma vez na vida: riquezas transcendentais e lições de vida
Não é apenas uma leitura, mas uma peregrinação em busca de si mesmo e dos mistérios da “Grande Alma do Mundo”
Imagem gerada por IA Qual enlevo não tive, talvez até espiritualmente, quando terminei aquele livro fininho, pequenininho, econômico — mas repleto de sabedoria e reflexões, em uma verdadeira peregrinação pelo “tesouro” de um coração: O Alquimista. Antes de decidir começar a ler essa de outras obras de Paulo Coelho, todavia, tive de ignorar os castelos medievais inexoráveis e as redomas gélidas e céticas da crítica ferrenha que, rasa, aponta coisas supostamente rasas.
Rompi tudo: O Alquimista me chamava, peregrino na vida como eu. Indico muito este livro ancestral, com uma condição: que seja lido da forma que penso que deve ser: de alma para alma, captando cada metáfora, analogia e, sim, cada lição de vida.
Os números do marketing acolhem a relevância e a amplitude do alquimista: essa fábula encantadora aparece no Livro dos Recordes de vendas, onde seu criador é o escritor brasileiro mais lido do mundo em toda a História; O Alquimista, um dos livros até hoje mais vendidos do planeta.
É uma ressonância: o leitor, independentemente de língua ou cultura, encontra um abrigo na jornada do pastor peregrino dos desertos. Não se apenas lê O Alquimista: acompanha-se a jornada de um ente humano, o pastor de ovelhas Santiago, por lonjuras na solitude, clamando por desvelar o que realmente tenha valor na vida, infiltrando-se nos labirintos da Grande Alma do Mundo. A verdade é que há, e sempre houve na humanidade, uma sede coletiva pelo questionamento transcendental.
Lembro que, ao iniciar O Alquimista, percebi, perplexa, ecos de algum outro escritor: na hora eu não soube, mas depois veio em uma límpida onda gigantesca de essência. Era ninguém menos que Ernest Hemingway, vencedor do Nobel de Literatura, especialmente em sua magnum opus O Velho e o mar. Tive a ousadia curiosa de perguntar ao próprio escritor Paulo Coelho (conhecido como O Mago, embora evite esse rótulo, até onde sei), se, por acaso, não havia se inspirado em Hemingway para escrever O Alquimista. Disse-me que não só se inspirou em O velho e o mar, mas que o primeiro capítulo era uma homenagem ao gênio literário ianque. Dois livros finos, mas pesadíssimos de significados e de âmago. Dois livros de busca solitária por si mesmo e pelo propósito da vida: um no mar, outro no deserto.

Um andarilho — no deserto ou no mar. Imagem: IA.
UMA PEREGRINAÇÃO NO DESERTO DO MUNDO 🐫 🌌💎
Mas do que fala O Alquimista, exatamente?
A trama se dá a partir de uma já mencionada peregrinação pelos desertos do Oriente. O ermitão é o pastor de ovelhas Santiago. Uma alma no vasto mundo. Em insondáveis caminhos, as personagens que cruzam a história do jovem protagonista são mais que figuras literárias: configuram arquétipos das nossas próprias “sombras” e da nossa humanidade. Mais: daquela busca pelo metafísico que marca nossa natureza humana e a historicidade. Assim, andando em uma atmosfera idílica de autodescoberta, a obra nos conduz por dunas que escondem muito mais do que tesouros materiais: afinal, não é apenas isso que o protagonista deseja.
O alquimista lê “os sinais” do Universo. Tudo tem de ter uma razão e um propósito. Não é possível que a vida seja tão vazia! Um amontoado de acasos, não, mas uma inefável teia onipresente, onde cada encontro e cada perda servem a um propósito maior. Como dizem no Oriente: Maktub — “estava escrito”. Nas estrelas, nas areias, nos pássaros, em tudo há uma alma que pode se comunicar com a nossa.
Aqui a alquimia não é a ganância pelo ouro e pelo poder, ou mesmo pelo Elixir da Longa Vida. Antes, muito antes, é a coragem de ir atrás do próprio destino, supondo que ele exista, desde na amizade até no amor e nas crenças. A “Grande Alma do Mundo” no livro é algo que aponta para um Deus que está em tudo e é tudo, como na filosofia “panteísta” de Spinoza. Ou para o cristianismo, no caso da peregrinação na solidão do deserto: Abraão, João Batista, Elias, o rei Davi, Jacó e até mesmo José do Egito escravo (citei apenas ícones do judaísmo ou cristianismo, mas vale para muitas e muitas religiões e crenças: a solitude).
Quantos não passaram pelos caminhos áridos do deserto, ou do mar, ou de ilhas, ou de cabanas, em contemplação? Até mesmo Jesus Cristo passou quarenta dias em jejum no Deserto da Judeia, região rochosa entre Jerusalém e o Mar Morto, preparando para Seu ministério e Seu sacrifício na cruz. Paulo Coelho, em seus manuscritos, sempre reserva um lugar sagrado para eremitas e aventureiros místicos, que abandonam as certezas do mundo para caminhar até o significado real das coisas e de sua própria existência.
A PLENITUDE DA SIMPLICIDADE 🤍
“Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”, disse a peregrina dos mistérios da alma (até o fim de sua vida) Clarice Lispector em sua magistral, brutal e enxuta obra A hora da estrela, quando vestiu a pele de Macabéa. Como em A hora da Estrela, em O alquimista cada palavra pesa como uma descoberta necessária, uma lição de vida e de que o amor é o catalisador final de qualquer transformação.
No fim, a obra magna de Paulo Coelho nos lembra de que o Universo conspira a favor daqueles que têm coragem de ouvir a si mesmos e ao próprio Universo, para além da zona de conforto e da opinião alheia ordinária ou do niilismo conformista.
É o religare do antropólogo Mircea Eliade, intrínseco ao ser humano: ligar o que está na terra ao que está nos Céus. Desfaçam-se, gélidas redomas céticas pós-modernas, ruam-se, castelos catedráticos arcaicos. Ali nunca estará O alquimista, ali há “sim” e “não” demais para quem se disponha a buscar o incognoscível do sagrado, dos segredos do Universo e do coração em suas formas mais puras e símplices.





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