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Ijuí,06/06/2026

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    “A hora da estrela”: o último e brutal fulgor de Clarice Lispector

    O adeus de Clarice Lispector no livro de Rodrigo S.M. e Macabéa é uma obra-prima “brutal e malfeita como uma pedra, mas leve e vaga”, e repleta de segredos


    “A hora da estrela”: o último e brutal fulgor de Clarice Lispector Imagem: Clarice Lispector/Divulgação

    Sei de muita coisa que não vi. E vós também. Não se pode dar uma prova da existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando. […] Trata-se de um livro inacabado porque lhe falta a resposta […] Amém para todos nós — Dedicatória do Autor (na verdade Clarice Lispector).” E assim Clarice nos deixou seu último e mais brutal fulgor. A hora da estrela.

    O romance A hora da estrela, exíguo e com tanto, tanto conhecimento de vida e morte e espírito, foi publicado em 1977, pouco antes da despedida de Clarice Lispector deste plano (porque é claro que ela olha por nós, de onde estiver, com seus olhos onipresentes de felina). A história é sobre Macabéa, uma garota tão magrinha e transparente que doía, e que nem sabia como existir, e que gostava de cachorro-quente, e de ir ao cais do porto; e também gostava de recortar revistas no quarto escuro, e, muito importante (mesmo), ouvir a Rádio Relógio quando não estava datilografando para ganhar seu ralo pão.

    Clarice, um tanto ressabiada em expor suas sensações mais pueris, quis submergir dentro de um tal Rodrigo S.M. para narrar os fatos da hora da estrela sem brilho, Macabéa, que ficou sozinha sem a tia no sertão e veio para o Rio de Janeiro. Onde tudo acontecia. Mas nada acontecia de muita coisa a Macabéa. Olímpico de Jesus, o metalúrgico que ia ser político, traiu-a sem quase tê-la ouvido dizer nada — ele só a queria para que falasse de sua própria grandeza e de como ela era pequena. 


    Filme do livro A hora da estrela, de 1985, em que Macabéa é vivida por Marcélia Cartaxo. Imagem: Divulgação 




    A HORA DE A ESTRELA SE APAGAR: UM LIVRO SOBRE O TUDO E O NADA 💫 


    É assim: leia. Quem ainda não leu, e talvez não conheça nada desta intempestuosa e por vezes inalcançável mergulhadora de profundezas existenciais, leia A hora da estrela. Da estrela que se apagou — lentamente no livro, de repente em sua Criadora, Clarice, na véspera do seu aniversário, 9 de dezembro de 1977; elegantemente, não quis fazer do 10 de dezembro uma data funesta. 


    Nesta sua última obra é quando Clarice vai novamente além da escrita de fluxo de pensamento — parecido com sua primeira obra, minha estimada e nua Perto do coração selvagem. Sugiro que Clarice tenha sido aquela menina de 23 anos (e antes ainda) do livro do coração selvagem; que deixou a crítica abismada e rutilante. Quem era ela? Quem era Clarice, nascida na Ucrânia Chaya Pinkhasivna Lispector, imigrante judia no Brasil desde os dois meses de idade? Clarice dá uma resposta: “Trata-se de um livro inacabado porque lhe falta a resposta”. Isso é Clarice estendida translúcida para descobrir — o quê? O Tudo, e também o Nada. 


    E conforme vi na orelha da minha edição, do colega de escrita e jornalismo José Castello: “É um livro sobre o desamparo”. Não de Rodrigo S.M., o autor fictício, nem mesmo de Macabéa que mal sabia que não estava existindo, mas de Clarice Lispector. Assim ela nos disse adeus. Com Macabéa desengonçada, tímida e opaca, conectando-se à escritora fina, misteriosa, libérrima até na gramática. Ela que “não tinha medo nem de chuvas tempestivas, nem das grandes ventanias soltas, pois ela também era o escuro da noite” (A hora da estrela). 


    Foi aquela “capacidade tão vermelha e afirmativa, quanto clara e suave” (Perto do coração selvagem) que se transmutou com a brutalidade ainda suave e brilhante da estrela. Sim, Clarice foi a menina exilada, sagaz, imprevisível e esperançosa até o fim da sua vida, uma vez que não sabia não se ser, embora achasse que dependia dos outros para sê-lo. A menina ora flutuando em si mesma, ora se afogando, como em seu livro sem gênero definido Água viva


    Este Perto do coração selvagem é uma história simples de um ente simplório, mas só à primeira vista: está carregada de todos os universos, muito condensados e por vezes esmagadores, de Clarice/Macabéa (ora, todos nós sabemos que um autor sempre escreve sobre si mesmo, seja lá como for). Ali, elas se sublimaram “brutais e malfeitas como uma pedra, mas leves e vagas” (parafraseando, mais uma vez, e nunca me será demais, Perto do coração selvagem).  


    Só acho que sim, Clarice tinha um “medo de menina” da solidão, ela disse chegou a escrever que era intrépida e “sempre se levantaria forte e bela como um cavalo novo” (Perto do coração selvagem). O que naturalmente provocava nela uma atração inefável por essa mesma condição — só nós, os peregrinos e destoantes na vida, os que fumam cigarros ou escrevem sem se dar conta, e tudo e nada sabemos, alternadamente e ao mesmo tempo, só nós eremitas no crepúsculo sabemos como é. 


    A GENTE MORRE”: DE DESAMPARO 🫥


    “Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre”, disse Rodrigo S.M. “Mas — mas eu também?!”. E daí, no total desamparo, Clarice macabéana avisa que “não se deve esquecer que por enquanto é tempo de morangos. Sim”. Clarice sempre falou muito sobre a morte, física e em todas as metáforas. Assim ela precedeu a sua própria, falando em fim.


    Quanto a mim, elevo meus olhos para o monte e clamo que no Céu — também eu sou cristã e falo muito em um Deus que pouco conheço — haja morangos; e café, ou melhor, vinho do Porto, e uma mesa recôndita para conversarmos eu e Clarice clarificadas, por um tempo não-tempo eterno. Ela é claro que me contará seu grande segredo do “livro inacabado sem resposta”. 


    Eis que vós sois então minha constelação que brilha — não, sequer escolhi, mas “já que sou, o jeito é ser”, como me dizem Rodrigo S.M./Macabéa/Clarice. Sejamos. 

    E agora mesmo acabo de descobrir o segredo: e o segredo é… morangos. 





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