“Bela da Tarde” provoca as convenções sociais com o irresistível jeito francês
Filme estrelado por Catherine Deneuve, erótico, sombrio e psicológico, escarra a hipocrisia de um matrimônio e a sedução dos prazeres mundanos na Paris de 1960s
Paris, 1960s. Pouco antes das convulsões do Maio de 1968. Tudo borbulha por toda parte, mas ainda com a elegante — e irresistível — discrição francesa. Aqui começa a obra-prima erótica e psicológica do aclamado diretor Luis Bunuel: Bela da tarde (Belle de Jour), estrelado magistralmente pela dame Catherine Deneuve, muito loira, ousada e sensual na pele de Séverine, recém-casada com o belo, afável e ocupado “provedor do lar” Pierre, vivido por Jean Sorel.
“Brutos! Me soltem! Eu posso explicar! Não é minha culpa!” Roupas rasgadas e presa a uma corda para apanhar do chicote, a mando daquele que dissera que a amava, seu amado. Não é tortura. É pura fantasia sexual sadomasoquista. E é apenas um sonho: Séverine acorda deslumbrante e recatada no quarto de casal ao lado do cônjuge Pierre. São recém-casados. Ela repete que o ama o quer ali, e ele também a ama. Mas outros sonhos de “selvagem liberdade” virão a ela. Até que se tornam… realidade, ao menos em parte.


As duas faces de Séverine: A Bela da Tarde e a esposa angelical. Imagem: divulgação
MAIS QUE UM FILME ERÓTICO E SEDUTOR: A REFLEXÃO SOCIAL QUE SÓI AOS FRANCESES 👠 🎩
Soa um pouco como a libidinosa beleza angelical do jovem Dorian Grey, no livro de Oscar Wilde (“toda beleza tem um laivo de crueldade” — uma punição). Séverine, a bela, exemplar, curiosa e entediada esposa de Pierre, decide “rasgar o véu”. No bordel de Madame Anaïs (um “nome de guerra”, é claro, referindo-se à libérrima escritora francesa Anaïs Nin), torna-se A Bela da Tarde. É uma “maison” clandestina. Ela experimenta o sexo, a culpa, o prazer, a si mesma. Mas coisas acontecem — aventuras sempre são perigosas, quanto mais deliciosas. A cena em que Séverine queima suas roupas íntimas usadas com um cliente na lareira de casa, o lar exemplar do casal, é antológica. Estara arrependida? Não acho que o filme A Bela da Tarde se dê ao luxo de nos dizer.
Ali, pessoas vivem o “lado B” da vida, todos têm uma reputação a zelar. Como Séverine.
Elementos sacros, como padres e igrejas, entremeiam-se como contrapesos à luxúria de Séverine nos róseos anos 1960. Nela, coexistem a esposa social e a mulher que quer viver e sentir. Principalmente o proibido — desde Eva no Paraíso temos essa “serpente” no encalço, ou somos, mulheres, apontadas como tal perigo. “Nem sempre com quem você ama, é sempre bom”, avisa a amiga da bela, sibilante e assediada Séverine. O bom é descobrir, não sem medo.
“Como se chama? — Bela da Tarde; — O que mais? — Nada.” Nada mais naquele momento de “loucura”, libertinagem no melhor sentido, e fuga do politicamente correto. E Séverine beija no sexo pago. Mas não esquece o conflito psicológico, que não deixa a obra de Bunuel se resumir a meras cenas erotizadas: “Um dia pagarei por meus pecados. Mas não conseguiria viver sem isso”, confessa a A Bela da Tarde. Que é Séverine.
Ah, mais um bom, adorável e um pouco sombrio — em questões que parecem difíceis — filme francês. O “sofrimento elegante” e a “liberdade flamejante” de Paris. Como alguém disse, “sempre teremos Paris”. Ela não muda muito sua essência vanguardista, ela é a Maçã Mordida na verdade.
Morda-a. Delicie-se. E depois pague seus pecados.
🍿 Onde assistir: Amazon Prime (canal Cindie) ou aluguel em streamings
⭐️ Destaques do elenco: Catherine Deneuve, Jean Sorel e Geneviève Page
🅰️ Classificação: 16 anos (ou 18!!!)





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