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Ijuí,06/06/2026

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    O romance que mais me tocou nos últimos anos é sul-coreano e não é uma história de amor

    As amígdalas cerebrais de Yunjae o impedem, a priori, de ter emoções, mas o que é amar, e o quanto a vida pode surpreender a racionalidade?


    O romance que mais me tocou nos últimos anos é sul-coreano e não é uma história de amor Capa do livro “Amêndoas” de Won-pyung Sohn/Divulgação

    “Esta história é, em resumo, sobre um monstro encontrando outro monstro. Um dos monstros sou eu.” Na verdade, não vi nada de “monstro”, e muito menos algo “monstruoso” no belíssimo Amêndoas, romance sul-coreano de Won-pyung Sohn. Ao contrário: que terna, dócil e ao mesmo tempo dolorosa história sobre ser quem somos e entender o que é amar. 

    A narrativa de Amêndoas gira ao redor de Yunjae, um garoto que, como na sinopse da obra: “Nasceu com uma condição neurológica chamada alexitimia, ou a incapacidade de identificar e expressar sentimentos, como medo, tristeza, desejo ou raiva”. É que aquelas duas estruturas em formato de amêndoas no fundo de seu cérebro, as amígdalas cerebrais, não funcionam como deveriam. 

    Um romance que trata sobre não ter a capacidade de amar soa, a princípio, impossível ou paradoxal, mas a autora Sohn faz disso uma obra-prima sobre a condição humana, sua pluralidade e a necessidade de acolhimento. Tudo em meio a um roteiro “tristemente adorável”. Não saberia descrever de outra forma. 

    Como todo bom livro, bom livro de verdade mesmo, este que é feito de amêndoas dói. E nunca uma obra tão bela dispensa analogias, por vezes inusitadas: há a amêndoa doce, de sabor adocicado, e a amarga, mais oleosa e mais forte. Cada uma delas é sentida de maneira diferente, mas ambas têm sabor. Elas são apreciadas na culinária sul-coreana, e inclusive pelo protagonista Yunjae, nosso atípico, sincero até demais e amável garoto cujo cérebro, pelo motivo das “amêndoas que não funcionam”, não tem a capacidade de sentir. 

    Yunjae, no entanto, é um ser denso logo após sua aparente superficialidade racionalista: ele é suave e afável como uma amêndoa doce, mas sabe ser incisivo e duro como uma amêndoa amarga. Ele decide o que faz, já que não sente. Ele pensa. Ele faz escolhas. Ele é diferente. E não é algo robótico e muito menos enfadonho: à sua maneira, diferente dos romances tradicionais, Yunjae sofre. E sofre pelos que sofrem por ele, notadamente sua mãe e sua avó. Quem julgará o que é sofrer? 


    Capa do livro “Amêndoas”. Imagem: divulgação

    SOBRE SER ESTRANHO E SER ACOLHIDO 🫂❤️‍🩹

    Yunjae não tem amigos. Não se interessa por relacionamentos profundos, do tipo que têm sentimentos. Vive em seu pequeno lar com a mãe e a avó, em uma existência até que tranquila e segura em um pequeno apartamento, acima do sebo da família, seu maior lar e lugar de trabalho e “amor aos livros”. Não lhe incendeiam os sentimentos, e não é culpa dele. É claro, a mãe tenta: há cartazes coloridos com lembretes de quando sorrir, quando se mostrar grato ou preocupação. São manuais de como sentir”. (E sabe, Yunjae me lembra bastante, excluindo o ego gigantesco de um gênio da Física, o Sheldon Cooper, da magnífica série The Big Bang Theory, que treinava como sorrir e perguntava aos amigos como devia se comportar em cada situação). 

    Mas então o jovenzinho Yunjae e sua vida — e mente — pacatas sofrem uma sacudida. Em seu décimo sexto aniversário, na véspera de Natal, tudo muda. Mesmo para Yunjae, tudo sempre muda de repente. Um ato chocante de violência destrói tudo que ele conhece e tem, e ele se vê totalmente sozinho. (A solidão é sempre um sentimento?)

    Tendo de lutar para lidar com perdas, isola-se no silêncio, ainda mais que antes. Até a chegada do problemático e violentamente intenso, seu oposto colega de escola Gon. Daí vem a alquimia, que lenta e sutilmente começa no “cérebro de amêndoas”: Yunjae decide, e então passa a se abrir para outras pessoas. O que está mudando dentro de si? Suas novas amizades demandam níveis de complexidade inauditos ao garoto que ama livros. 

    Ele precisa aprender a viver em um mundo que não compreende, e para isso deixara a zona de conforto para enfrentar a “jornada do herói” e se arriscar. Desafiar a si mesmo, à sua capacidade (ou incapacidade) e “sentir como uma pessoa normal”. Tentar acolher e, quem sabe, esperar ser acolhido. 

    Longe, muito longe de ser um monstro sem coração, o Yunjae do romance Amêndoas nos revela que mesmo as pedras mais duras podem ser quebrantadas. Que somos mais que diagnósticos e reações químicas no cérebro, e que podemos encontrar novos caminhos e novos relacionamentos, novos “eus”. De repente, quem sabe até achamos por aí, distraidamente, o que muitos chamam de “amor”. 

    Até porque: quem sabe bem o que é o amor, esse tema fulcral de toda a arte e de toda a humanidade?  

    Amêndoas, lançado no Brasil em 2023, é um sucesso mundial e venceu o Prêmio Changbi de Ficção para Jovens Adultos e o Prêmio Jeju

    Um romance não apenas sobre não querer sentir — mas não conseguir. Eis aí este menino sul-coreano, com toda a sua simplicidade, obliterando todas as subjacências e conveniências sobre o que realmente significa aceitação, compreensão, respeito, lealdade, verdade e o próprio ato de amar. Isso, é claro, apenas para o leitor capaz de perceber essa reflexão emocionante na obra. 

    Estas amêndoas são uma boa pedida em plena Era da Inteligência Artificial: a IA não sente — mas sentirá algum dia? Ou o que é sentir, mais uma vez? Vivendo, e conhecendo ao mundo e a nós mesmos, descobriremos de maneiras particulares e, muitas vezes, imprevisíveis. Sobretudo, saberemos que amar é ação e não apenas emoção ou mesmo palavras. Isso Yunjae aprendeu cedo. 





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